sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sofia, hoje é para você.

Filha,
Hoje o post é dedicado somente a você, não que os outros não sejam, mas hoje é seu, como se eu pudesse te imaginar com a minha idade, nós duas sentadas na praia, vendo o sol indo embora, tomando uma água de côco e eu te contando como era há 25 anos atás...
Sofia, anteontem, segurei na sua mão quando senti medo, você estava dormindo e eu me senti tão só, te olhei várias vezes até que não resisti, e o papel se inverteu, eu senti medo, e eu te solicitei, segurei firme na sua mãozinha e só assim consegui dormir.
Não quero ficar te contando história triste, mas são histórias que tem feito parte dos meus dias desde quando conheci seu pai. Desde então todos os dias tem sido diferentes do que eram os meus dias antes da chegada dele na minha vida. Sinceramente filha, não culpo seu pai por ser da maneira que é, a ele faltou limites, imposições, mas também não julgo seus avós por isso, feliz ou infelizmente, os filhos não saem com manual de instruções da maternidade.
Tem sido uma luta Sofia sentir o que eu sinto pelo seu pai. É como amar e ao mesmo tempo, relutar quanto a esse sentimento, é brigar comigo internamente o tempo inteiro, é como viver de mentirinha. Acho que idealizei o tempo todo uma pessoa que nunca existiu, e como isso me matou todos os dias um pouquinho. Meus amigos se afastaram, seus avós ficam tão tristes com tudo isso, e tudo ao redor parece totalmente sem sentido filha.
Queria tanto Sofia que ele tivesse aproveitado essa chance que Deus deu de se tornar uma pessoa modificada e para melhor! Torci pelo seu pai como NUNCA torci por ninguém, acredite. Sinceramente, acho que nunca quis tanto a felicidade de alguém como eu quis a dele. Mas simplesmente tem amores que são impossíveis.
Ele me faz sofrer demais, me leva ao meu limite, ao meu extremo, não tem sido meu companheiro nessa etapa tão delicada com a minha saúde, é extremamente agressivo nas atitutdes e palavras quando se descontrola...somos tão diferentes filha! Às vezes tenho tanto medo de nunca mais resgastar a Juliana que ele matou, não é drama Sofia, é a minha dor.
Não consigo ainda separar o homem, do pai, aliás não sei nem se algum dia isso será possível, pois a presença dele em nossas vidas, de qualquer jeito, será eterna. Sempre será o seu pai e o pai da minha primeira filha, da minha Sofia. Ficam mil coisas na minha cabeça, mil situações futuras, ainda não consigo enxergar um palmo a minha frente. Tento me organizar, pensar que depois que a saúde estiver ok, pensar em um emprego, em estudar, organizar a sua vida, e finalmente, voltar a ser eu mesma, mas não sei se consigo tudo isso, mas sei que preciso conseguir por nós duas, principalmente por você.
Eu só quero que você saiba que a sua história não é fragmentada. Que você tem um pai e uma mãe que te amam muito, mas que filha, eu não sou feliz da maneira como o seu pai é. Não estou tendo apoio algum dele nessa fase que estou passando, tenho tido crises e mais crises nervosas, de chegar ao ponto, de não ter vontade de continuar a caminhada, e só tenho força por você.
Não sei como serão nossos dias daqui para frente, muito menos posso dizer sem ele, porque na realidade, somos só nós duas desde o começo. Eu criei uma realidade para provar pro mundo que não fui mãe solteira, que por mais que as coisas tenham se antecipado, o pai ali está e mentira Sofia, não está agora, nem nunca esteve. Ele te ama demais, te quis muito, mas não despertou para o que é construír uma família, é amar, é cuidar, é RESPEITAR e nada disso acontece.
Sofia, eu desejo minha filha, que Deus envie um rapaz maravilhoso quando for a sua hora. Que ele te faça feliz, que você o faça feliz, que nada do que eu passei e estou passando, você precise passar. Que vocês possam crescer juntos, ter seus filhos, sua família...minha filha, vou estar ao seu lado por toda a sua vida e em outras.
Me desculpa todo o nervosismo, o desespero. Preciso superar o seu pai na minha vida Sofia, preciso pular esse degrau e subir tantos outros. Me envie forças com o teu amor puro e inocente.
Te amo mais que a eternidade. O seu olhar é o mais puro do mundo.
Mamãe.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O DESGASTE DA DOENÇA

O desgaste emocional de quando se tem algo que a gente considera um problema, é enorme, imagina quando esse problema é de saúde? A 'doença' tem estágios no quesito desgaste. Primeiro tem a fase da aceitação, e eu já pude reparar que comigo funciona da seguinte maneira: Primeiro eu levo um choque tão grande, que ajo naturalmente, como se estivesse tudo ok, nada demais, vamos lá, ainda me 'desfaço' da reação das pessoas. Foi exatamente assim quando descobri que estava grávida, achei tudo muito natural nos primeiros dias, dava risada, enfim, eu estava extremamente chocada.
Passada a fase da aceitação, vêm o desespero. Normal. E eu me desesperei por conta do tumor nas duas primeiras noites depois da descoberta. Chorei, tive muito medo de morrer, imaginei todo o procedimento cirúrgico, me imaginei com mil sequelas, boca torta, terrrível. Mas como não há mal que dure para sempre, essa fase também passa e passou.
Logo em seguida vêm a fase da fé, fé em TUDO, eu disse TUDO E TODOS. Eu fiz questão de buscar o apoio das pessoas, e não só das mais próximas não, falei mesmo pra todo mundo, até para os motoristas dos táxis em que eu andava para fazer os exames, ou algo do tipo, estava eu contando a minha história e do tumor. E nesse momento, recebi um carinho enorme, não só da minha religião, como de tantas outras. Me agarrei em TUDO. Bebi água sagrada, passei pomada de tenda cristã na cabeça, recebi três horas seguidas de Johrei todos os dias, li a Bíblia, rezei pra entidades espirituais, fiz operação espiritual, literalmente, me fortaleci.
Após a fase do fortalecimento espiritual, vêm o desgaste MÁXIMO e é a fase onde me encontro. Completamente de SACO CHEIO DE QUALQUER COISA QUE ME LEMBRE QUE TENHO UM TUMOR NA CABEÇA, OU SEJA TUDO E TODOS. As pessoas me olham e acham que se não perguntarem como estou, e os exames, vão estar sendo mal educadas, meu pai fala disso toda vez que me liga, minha mãe já leva para o lado espiritual da coisa e toda vez que eu menciono em ligar para o meu médico, ela quase entra em pânico, pois isso significa marcar a cirurgia.( aliás, marcamos hoje para o dia 28 de novembro. )
Estou completamente desgastada. Em especial a minha mãe, a Ingrid e o Vitor que mais convivem comigo, ah, sem deixar a Sofia de fora, eles tem tido uma paciência fora do comum, apesar de vira e mexe o tapa correr, eu estou realmente um saco. Impaciente, sensível, carente, irritada, mau humorada, e com um sentimento que eu DETESTO MUITO -SOLIDÃO.
Quando a Sofia está dormindo apesar do meu cansaço, praticamente conto os minutos para ela acordar e me ocupar, me fazer reclamar que estou com fome, com sede, vontade de fazer xixi e ela não deixa porque só quer o que não pode e blá blá blá. É olhar a agenda o celular, procurar uma amiga para ligar e não ter, pelo fato de todas as amigas estarem em outra fase da vida, sem contar que nenhuma delas graças a Deus está passando por nada semelhante, ou seja, acabo concentrando tudo no Vitor, e por isso tantas brigas ultimamente.
Confesso que estou até longe da minha religião, não tenho rezado, fui arrastada ao Culto de Antepassados, sem saco, sem vontade de receber Johrei, vou ser super sincera e tenho certeza que Deus não está encarando isso como ingratidão da minha parte, mas duvidei da cirurgia espiritual, depois de saber que está tudo na mesma, pensei, recebi johrei três horas do meu dia, com a bunda doendo, e nada! Questionamentos que passam SIM na cabeça e que eu estaria sendo muito mentirosa se não contasse aqui, afinal aqui, eu só conto o que eu sinto mesmo, sem ficar de rodeios.
Então estou nesse estágio da 'doença', cansada, de saco cheio, sem saco para terminar os exames, sem paciência com a Sofia, às vezes acho que vou segurar ela com toda a força do mundo e gritar: PÁRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! Em outras, peço que ela me entenda, pois estou muito nervosa e simplesmente, por ela, só por ela, se bem que por mim também, fico com um milhão de projetos na cabeça, trabalho, faculdade, minha casa, minha vida, parece que tudo ficou ali, em algum lugar perdido, ou que eu nada construí e agora tendo que vencer essa barreira, tudo parece tão distante, achei que seria tão diferente...
É muito delicado. O sentimento de solidão invade toda hora e é horrível. Eu chego a sentir aquele vazio literalmente no peito. Acabo cobrando do Vitor, mas ele tem a vida dele, os hábitos dele, a maneira dele de ser, preciso entender que a fonte salvadora não é ele, não é Sofia, nem meus pais, sou eu mesma, só eu posso controlar a minha mente, os meus pensamentos e me salvar.
Não gostaria que ninguém passasse por esse tipo de coisa, muito menos mamães recém, é tudo tão novo nessa época, o primeiro ano do bebê, e ter que enfrentar tudo isso se tratando de uma gravidez surpresa, com uma doença para curar, que me deixou já uma sequela, a surdez, ter que se agarrar em tudo o que se vê pela frente para ter força, ter fé, não perder a esperança de que ano que vêm, finalmente, será TUDO DIFERENTE.
Assim seja e assim SERÁ.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Paquetá.

Hoje o post tem cheirinho de infância e gostinho de lembrança - ILHA DE PAQUETÁ! Essa aí ao lado, que saudades!
Essa noite revivi sensações deliciosas na minha cabeça, lembrando das minhas férias em Paquetá quando criança. A noite que antecedia o GRANDE DIA, eu mal dormia, era uma ansiedade tão grande, mas tão grande que por mim não era preciso nem dormir!
A minha tia na época, trabalhava na antiga loja MESBLA, famosa aqui no nosso bairro, aliás, no Rio de Janeiro, vendia de tudo, tipo uma Lojas Americanas, um Wallmart, e em Paquetá funcionava nada mais, nada menos, que uma Colônia de Férias para funcionários e seus familiares. Todas as férias, feriados grandes, estávamos lá, eu, Mariana, minha prima, minha vó e meu avô - que saudade!
Me avô, assim como eu, gosta muito desse cheirinho de mato, de praia, vidinha rústica mesmo, então a nossa ansiedade era a mesma, chegar logo em Paquetá. Geralmente eu dormia na casa deles, acordávamos bem cedinho e antes das 7 da manhã, já estávamos na porta da vila da Mariana para embarcarmos logo!
O trajeto que fazíamos era do Méier, até a Praça XV, da onde saíam as barcas. Meu avô adorava o passeio da barca, levava mais ou menos, 1h e 30 e isso para duas crianças super ansiosas era o FIM DO MUNDO! Praticamente 2 horas vendo água, água e água!!! Na época, tinha a opção do catamarã ou aerobarco, o trajeto era reduzido em apenas 20 minutinhos rs, mas o preço era maior e nada como apreciar a paisagem com o meu avô rs. #controleaansiedade
Me lembro que no saguão de espera das barcas, ficava tudo muito cheio, eram muitas famílias, crianças, idosos, jovens, era dia de PAQUETÁ, e nós ficávamos ali colocadas na corrente enferrujada que nos separava da barca, ansiosas, e quando a barca chegava, começávamos a pular, gritar, meu avô junto, era uma felicidade só! Quando o rapaz soltava aquela corrente - CORRE para pegar um bom lugar na barca!!! Adorávamos ir no segundo andar, ou na varanda, como o meu avô dizia, sentindo a brisa e a minha vó, nos mandando vestir casacos, tocas, luvas...
Quase chegando no desembarque, nós passávamos pela Colônia de Férias, até hoje tem um farol em frente, era um ponto que sabíamos que restavam apenas 15 minutinhos, depois das longas e intermináveis 1h e 15 minutos naquela barca. A primeira visão era essa, logo em seguida, as pessoas já começavam a se levantar, arrumando suas malas, e lá vamos nós!
CHEGAMOS! Charretes táxis, bicicletinhas, cheiro de cocô de cavalo, pipoqueiro na praça, feirinha, mercadinho, hotel, casa do bicheiro, casa enorme com cachorros muito muito grandes, iate club, pedra bonita, ponto de pesca, parquinho, FAROL, CHEGAMOS!
Ai...impossível descrever a sensação de chegar! Piscina, crianças, feijão do Tião, refeitório, picolé de limão, sol, histórias de pescador, bicicleta, parque Dark de Matos, praia da moreninha, tardes de ventinho batendo no rosto, andar descalça, ter a sensação de liberdade pois não tem carro, história de terror na praça, volei, futebol, vara de pescar, ver meu avô tomando cervejinha feliz da vida, sala de tv, bambuzal do quartos, férias, feriados, Natal, Ano Novo...
Tinham épocas de ficármos 1 mês em Paquetá, ao ponto dos meus pais irem me visitar. Saudades, saudades e muitas saudades. Poderia ficar aqui até amanhã contando histórias da minha infância em Paquetá. Por essas e tantas outras, por todo esse carinho pela ilha, pela saudade, pela minha infância, que NESSE SÁBADO, fazendo sol, levarei a minha Sofia lá = ) Quero que ela aprecie a ilha como eu, respeite aquele pedacinho do céu tão perto dessa loucura que é o Rio de Janeiro...
Quero andar com ela de bicicleta, levá-la no farol, andar de trenzinho, sentar na pedra....
Ah, quando dava o dia de ir embora, era um chororô tremendo, tanto nosso, como dos funcionários da colônia. A barca voltava cheia, e todos os funcionários íam até o farol, o colocavam para tocar, acenavam de lá, nós da barca, a barca respondia com aquela buzina, e era o fim das férias e a chegada da saudade e da ansiedade do dia de voltar.
Chorei.
Beijos, Mamãe.